Câmara, Senado, Justiça: Milei acumula derrotas em 3 meses de governo
Pela primeira vez na Argentina, um DNU, uma espécie de medida provisória, de um presidente ainda no posto é rejeitado no Senado. Além disso, na Câmara dos Deputados a lei 'ómnibus' foi retirada de pauta porque estava sendo desfigurada, e na Justiça a reforma trabalhista foi derrubada. Javier Milei, da Argentina, em fevereiro de 2024
Agustin Marcaria/Reuters
O Senado argentino rejeitou o "decretaço" do presidente Javier Milei na quinta-feira (14), a segunda derrota no Congresso neste ano –em fevereiro, um grande projeto que o governo havia enviado à Câmara de Deputados, o da lei "ómnibus", foi retirado de pauta porque seria derrubado.
✅ Clique aqui para seguir o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
Apesar de o Senado ter rejeitado o "decretaço", o texto ainda está em vigor. Ele só será derrubado se a Câmara de Deputados também votar contra a medida.
O texto, cujo nome oficial é Decreto Nacional de Urgência (DNU), funciona como uma espécie de medida provisória. Ele conta com mais de 600 artigos e diversas reformas econômicas que flexibilizam o mercado de trabalho e abrem caminho a privatizações. Essa é a primeira vez que o DNU de um presidente ainda no posto é rejeitado.
Milei também sofreu derrotas na Justiça: juízes já determinaram que alguns trechos do próprio "decretaço" sejam derrubados, e o governo perdeu uma disputa judicial com uma província.
A rejeição do 'decretaço'
A sessão do Senado na qual o "decretaço" foi rejeitado durou mais de sete horas, e o resultado da votação foi o seguinte:
42 votos contrários;
25 votos favoráveis
4 abstenções
O gabinete de governo publicou uma nota na rede social X (novo nome do Twitter) após a rejeição do DNU. O texto lembra um discurso de Milei para os legisladores: "O presidente apresentou duas alternativas, o acordo ou o confronto. Chegou o momento da classe politica decidir de que lado da história quer ficar".
A nota faz menção a uma tentativa de um acordo que Milei pretende firmar com as outras forças do país chamado Pacto de Maio, e afirma que a derrota do "decretaço" no Senado "atenta contra a convocatória do presidente".
Além disso, cita que os governos anteriores conseguiram passar quase 500 DNUs.
O governo já sabia que não teria votos no Senado para aprovar o "decretaço", e a tática era evitar a votação.
No entanto, a vice de Milei e presidente do Senado, Victoria Villaruel, ignorou os apelos do presidente argentino e colocou a votação em pauta, aumentando as tensões entre os dois.
Na quarta-feira (14), em uma publicação na rede social X, sem citar o nome da vice, o gabinete da Presidência divulgou um comunicado com diversas indiretas a Villarruel:
"Alguns setores da classe política pretendem avançar com uma agenda própria e não consultada", diz o tuíte, que agradece aos legisladores "que não se prestam ao jogo perverso daqueles que deliberadamente entorpecem o desenvolvimento da nação".
Milei sofre grande derrota ao não conseguir aprovar mudanças legislativas na Argentina
A derrota da lei 'ómnibus'
No dia 2 de fevereiro, o partido de Milei teve que retirar a lei "ómnibus" de pauta na Câmara dos Deputados após a rejeição de partes importantes do texto pelos deputados.
A lei "ómnibus" era a base para uma reforma liberal do Estado argentino.
O texto chegou a ser aprovado em termos gerais, mas, na hora de se discutir artigo a artigo, ele começou a ser rejeitado de uma forma que os governistas acharam melhor tirar de pauta.
As discussões entre os deputados foram interrompidas quando se começava falar sobre o capítulo das privatizações, mas antes disso os deputados governistas já estavam sofrendo derrotas em artigos importantes, como o que tratava da reforma do Estado.
Esse trecho do projeto pretendia permitir que o governo pudesse reorganizar a administração pública. O texto permitia que o Executivo pudesse "centralizar, juntar, transformar o tipo de pessoa jurídica, dissolver ou suprimir totalmente ou parcialmente órgãos ou entidades do setor público". Esse artigo era importante para diversas outras partes da lei "ómnibus".
LEIA TAMBÉM:
As opções de Milei após emblemática "Lei Ómnibus" ser rejeitada pelo Congresso na Argentina
Decisão de 2ª instância da Justiça argentina considera inconstitucional a reforma trabalhista de Milei
Milei dispensa funcionários da maior agência pública de notícias da Argentina, e sede é lacrada e cercada pela polícia
As derrotas na Justiça
Mesmo antes do "decretaço" ser rejeitado pelo Senado, uma parte do texto, o trecho que instaurava uma reforma trabalhista no país, já tinha sido vetada pela Justiça.
Houve decisões de primeira instância que determinavam que a reforma trabalhista dentro do "decretaço" não podia ser aprovada por um DNU. No fim de janeiro, um tribunal de segunda instância reforçou o entendimento.
O argumento da Justiça é que o Poder Executivo não tem competência para emitir disposições de natureza legislativa.
Além disso, a Justiça também derrotou o governo de Milei em uma disputa com a província de Chubut.
Na Argentina, a arrecadação de impostos é muito centralizada no governo central, que repassa uma parte do dinheiro para as províncias. O ex-governador de Chubut havia assinado um acordo com o governo federal que determinava que se a província não conseguisse pagar uma parte da dívida, a Casa Rosada poderia reter uma parte do dinheiro de impostos.
Isso aconteceu: o governo de Milei reteve parte do dinheiro da província. No entanto, o atual governador, Nacho Torres, está tentando renegociar a dívida com o Banco Central.
Torres entrou na Justiça para que o governo federal não retenha mais repasses de impostos, e venceu em primeira instância.